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Produção enxuta: Entenda o conceito e como aplicá-lo
Melhoria de Processos

27 de março de 2017

Última atualização: 07 de junho de 2023

Produção enxuta: Entenda o conceito e como aplicá-lo

A produção enxuta, também conhecida como Lean Manufacturing ou simplesmente Lean, é um sistema de produção que se originou na Toyota no período pós-guerra. Com foco na redução de desperdício e no aumento da eficiência, o sistema Lean busca otimizar os processos, maximizar o valor do cliente e minimizar o desperdício.

O interessante do Lean é que, apesar de suas raízes na manufatura, seus princípios podem ser aplicados em qualquer tipo de organização ou setor - de hospitais a empresas de software, de startups a corporações multinacionais. Isto é porque Lean é, no seu cerne, uma filosofia de gestão.

O Lean Manufacturing tem o objetivo de maximizar o valor do cliente e minimizar o desperdício. Uma organização enxuta entende o valor do cliente e concentra seus principais processos para aumentá-lo continuamente.

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O que é produção enxuta?

O termo produção enxuta ficou famoso com a ascensão do Lean Manufacturing e do Toyota Production System (Sistema Toyota de Produção). Em resumo, a produção lean (enxuta) deve entregar ao cliente exatamente o que ele quer, na quantidade que ele quer e no tempo que ele desejar, o mínimo de desperdício possível. Ou seja, trata-se de conhecer a fundo a necessidade do cliente e desdobrar os processos de maneira a atendê-lo da forma  mais assertiva

Quer se aprofundar nos conhecimentos sobre a metodologia Lean? Conheça nosso curso gratuito de Introdução ao Lean! Com ele você será capaz de identificar os 7 desperdícios visuais, aplicar as ferramentas do Lean para eliminá-los e identificar os processos que agregam valor ao cliente. 

Onde surgiu a produção enxuta?

A produção enxuta surgiu das práticas adotadas pelos japoneses na sua reconstrução nas décadas logo após a Segunda Guerra Mundial. 

Em suma, durante a década de 1950, o Japão encontrava-se arrasado. A maioria de sua indústria havia sido destruída e os japoneses estavam com a moral lá embaixo. Pensando nisso, os japoneses se organizaram e criaram uma instituição chama JUSE: Japanese Union of Scientists and Engineers, algo como “União Japonesa de Cientistas e Engenheiros”. A JUSE, por sua vez, trouxe grandes gurus da qualidade (muitos deles vieram dos EUA, como é o caso de Deming) para discursar sobre qualidade no Japão. A ideia era: “se vamos começar do zero, vamos começar direito”. Esses discursos eram geralmente feitos em encontros da organização.

Esses encontros da JUSE inspiraram de maneira significativa a Toyota. A empresa precisava competir com gigantes automotivos como a Ford (que era muitas vezes maior), porém tinha poucos recursos e, devido à guerra, tinha sérias limitações para cortar custos e demitir pessoas. Portanto, a empresa precisava encontrar um jeito alternativo de se sobressair.

E foi justamente isso que ela fez, através do desenvolvimento da produção enxuta. A Toyota estruturou sua linha produtiva para sempre fazer o que o cliente quisesse, na hora que ele quisesse e como ele quisesse. Ou seja, eles desenvolveram uma série de práticas que a possibilitou aumentar significativamente a sua produtividade sem aumentar os custos, eliminar desperdícios comuns a produção em massa e gerar maior valor ao produto final.

Qual é o principal objetivo da produção enxuta?

O principal objetivo da produção enxuta, também conhecida como Lean Manufacturing, é eliminar desperdícios, ou seja, qualquer recurso consumido que não gera valor para o cliente. Isso pode incluir desperdício de tempo, materiais, energia e outros recursos.

Os princípios do Lean visam criar um fluxo de trabalho mais eficiente que reduza os custos e aumente a qualidade, enquanto proporciona valor aos clientes de forma mais rápida e eficaz. Isso é realizado identificando e eliminando etapas desnecessárias no processo de produção, melhorando a qualidade do produto para reduzir retrabalho e retornos, e harmonizando o fluxo de trabalho para melhor atender à demanda do cliente.

Em última análise, a produção enxuta é sobre entender o que o cliente valoriza, focando os processos para entregar esse valor, e continuamente melhorando esses processos para aumentar eficiência e eficácia.

Quais os benefícios da produção enxuta?

A produção enxuta traz uma série de benefícios tanto para as empresas quanto para os clientes. Aqui estão alguns dos mais significativos:

  • Redução de desperdícios: Ao eliminar atividades que não agregam valor, as empresas podem reduzir custos significativamente. Isso pode incluir a minimização do desperdício de matéria-prima, tempo, espaço de armazenamento e outros recursos;
  • Melhoria na qualidade: O foco na eliminação de defeitos e na produção de itens de alta qualidade pode resultar em menos retrabalhos, devoluções e reparos, levando a uma maior satisfação do cliente;
  • Melhoria na eficiência: O foco na melhoria contínua dos processos e na redução de atividades desnecessárias pode levar a uma produção mais rápida e eficiente;
  • Redução do tempo de ciclo: Ao eliminar atrasos e esperas na linha de produção, o tempo total necessário para produzir um produto ou serviço pode ser drasticamente reduzido;
  • Maior flexibilidade: A produção enxuta permite uma resposta mais rápida às mudanças na demanda do cliente, o que pode proporcionar uma vantagem competitiva em mercados voláteis;
  • Melhor moral do pessoal: Ao envolver os funcionários na identificação e eliminação de desperdícios, as empresas podem melhorar o moral e a satisfação no trabalho, levando a um maior engajamento e produtividade;
  • Sustentabilidade: Ao minimizar o desperdício, a produção enxuta também pode ajudar a reduzir o impacto ambiental da produção.

No geral, a produção enxuta pode resultar em uma organização mais ágil, eficiente e lucrativa, capaz de produzir produtos de alta qualidade que atendem às necessidades dos clientes de forma rápida e eficaz.

Quais são os cinco princípios da produção enxuta?

A produção enxuta se baseia em cinco princípios fundamentais, conforme definidos por James Womack e Daniel Jones no livro "Lean Thinking". Esses princípios oferecem um roteiro para a implementação de práticas de produção enxuta:

  • Valor: O primeiro passo é identificar o valor do ponto de vista do cliente final. Ou seja, o que o cliente está disposto a pagar? Esse princípio destaca a importância de entender claramente as necessidades do cliente;
  • Fluxo de Valor: Este princípio envolve a identificação de todas as etapas do processo de produção que levam ao produto ou serviço final. O objetivo é eliminar todas as etapas que não criam valor (desperdícios) para otimizar a eficiência;
  • Fluxo: Uma vez que o fluxo de valor é estabelecido, a meta é fazer com que os produtos ou serviços fluam sem interrupções ou atrasos. Isso pode requerer a reorganização de processos para que o trabalho flua de uma etapa para a próxima sem paradas ou acumulações;
  • Produção Puxada: Em vez de empurrar produtos para o mercado (baseado em previsões), a produção enxuta busca responder à demanda do cliente (ou seja, produzir com base nos pedidos dos clientes). Isso ajuda a evitar a sobreprodução e a acumulação de estoque;
  • Perfeição (busca pela melhoria contínua): O último princípio é a busca pela perfeição. Isso envolve o esforço constante para eliminar mais desperdícios e melhorar a eficiência. Trata-se de um processo contínuo, em que a organização está sempre buscando maneiras de melhorar e refinar seus processos.

Estes cinco princípios ajudam a criar uma cultura de melhoria contínua que envolve todos na organização, desde a alta gerência até os trabalhadores da linha de frente.

Quais as desvantagens da produção enxuta?

Apesar de seus muitos benefícios, a produção enxuta também tem algumas desvantagens que devem ser levadas em consideração. Aqui estão algumas delas:

Implementação Difícil

A transição para a produção enxuta pode ser desafiadora e requer uma mudança cultural dentro da organização. Isso pode exigir um investimento significativo em treinamento e desenvolvimento de pessoal.

Dependência de Fornecedores

O método de produção enxuta exige um alto nível de confiabilidade nos fornecedores, pois a falta de peças ou materiais pode interromper toda a linha de produção. Se um fornecedor falhar na entrega, isso pode causar grandes problemas.

Vulnerabilidade a Mudanças Abruptas na Demanda

Como a produção enxuta é focada na produção puxada (baseada na demanda real), um aumento súbito na demanda pode ser difícil de lidar, levando a atrasos e insatisfação do cliente.

Estresse do Trabalhador

A produção enxuta pode levar a um aumento da pressão sobre os trabalhadores, pois exige um fluxo contínuo de trabalho e a busca constante pela eficiência. Isso pode levar ao esgotamento e à rotatividade de pessoal se não for gerenciado adequadamente.

Falta de Criatividade e Inovação

Como a produção enxuta se concentra na eficiência e na redução de desperdícios, ela pode desencorajar a experimentação e a inovação. Os trabalhadores podem ficar relutantes em experimentar novas ideias por medo de criar desperdício.

Apesar dessas desvantagens, muitas organizações encontraram maneiras de implementar os princípios enxutos de uma maneira que funcione para elas, adaptando-os às suas necessidades e cultura únicas.

O que é sistema de produção puxada?

Existem, hoje, tipos de produção diferentes, mas naquela época, a produção empurrada era a mais comum. Em resumo, a produção empurrada significa produzir com base em um planejamento de vendas. O controle da produção (o famoso PCP), programa o quanto ele acha que o cliente vai comprar. Em seguida, o controle de produção divide os lotes do produto em ordens de produção e produz, minimizando os setups da linha e guardando o material em estoque. Após a produção, o cliente vai comprando e o estoque vai sendo reduzido.

Exemplo 1 Esquema de uma produção empurrada. Note que o planejamento controla como funciona a produção.

Este é um sistema arriscado e repleto de falhas. O mais óbvio deles é o erro do planejamento de vendas. Na maioria dos casos, o controle erra para mais, criando estoques imensos. Portanto, a ideia da Toyota em criar uma produção puxada, era um novo olhar e formato de gestão em processos produtivos. O sistema de gestão tps.

Na produção puxada, não há um controle de produção fazendo previsões. A produção é determinada pelos próprios operadores de produção, a partir de cartões kanban e supermercados de peças. Quando as peças atingem um estoque “crítico” nos supermercados, a produção começa a produzir aquele item, pegando seus insumos em um supermercado do processo anterior (e assim por diante).

Exemplo 2 Esquema de uma produção puxada. Note que o controle da produção é feita pelos próprios operadores da linha.

Ou seja, a fábrica produz exatamente o que quer o cliente, atendendo melhor flutuações nas vendas. Obviamente, a fábrica em produção puxada realiza mais setups do que uma fábrica na produção empurrada. Contudo, isso não necessariamente é ruim, pois a organização se prepara para aumentar a sua flexibilidade. Portanto, faz-se necessário o trabalho de melhorias pontuais e contínuas, por exemplo, o famoso kaizen.

Como o kaizen se relaciona com a produção enxuta?

Kaizen significa melhoria contínua. Portanto, implementar o kaizen é implementar toda uma cultura de resolução de problemas focados e de melhorias de longo prazo. Alinhando, assim, toda a organização em uma filosofia de “fazer bem feito”, ou seja, usar o lean thinking em todos os processos para resolver os problemas de forma efetiva e permanente. 

Mas o que isso tem a ver com produção enxuta? Tudo. Afinal, sem melhorias pontuais nas linhas de produção, não se implementa a produção enxuta.

O exemplo mais claro disso está nas atividades de setup, ou seja, aquelas atividades que fazemos quando vamos partir a nossa linha de produção (calibrar as máquinas, alimentá-las com matéria-prima). Normalmente as empresas evitam com todas as suas forças realizar um número elevado de setups, o que faz com que elas produzam sempre grandes lotes de produção. Em suma, a flexibilidade da linha é muito baixa.

Uma linha com uma flexibilidade baixa dificilmente pode trabalhar em um regime puxado. Imagine só, mudar várias vezes de produção ao longo do dia, sendo que cada mudança dessa consome horas! A produtividade, portanto, será seriamente prejudicada. Para que isso não ocorra, elas trabalham no sistema de produção empurrada, criando estoques altos e tornando a produção tudo, menos enxuta.

Como tornar essa linha enxuta? Diminua o tempo que se gasta com setup. E como fazer isso? Melhorando continuamente o processo de setup, através do kaizen. Com isso, diminui-se o lead time com este processo e ganha-se flexibilidade, tornando a produção cada vez mais enxuta. Além disso, aplicar o kaizen para outras partes da produção também contribui para enxugá-la.

Integre demais ferramentas da qualidade na produção enxuta

Enxergar os problemas nos processos pode ser algo difícil a primeira tentativa, ou se você não tiver as ferramentas adequadas. Por isso, utilizar-se das 7 ferramentas da qualidade torna o mapeamento de problemas algo muito mais simples e assertivo.

Confira nossos outros blogs sobre cada uma das ferramentas listadas abaixo:

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Virgilio F. M. dos Santos

Virgilio F. M. dos Santos

Sócio-fundador da FM2S, formado em Engenharia Mecânica pela Unicamp (2006), com mestrado e doutorado na Engenharia de Processos de Fabricação na FEM/UNICAMP (2007 a 2013) e Master Black Belt pela UNICAMP (2011). Foi professor dos cursos de Black Belt, Green Belt e especialização em Gestão e Estratégia de Empresas da UNICAMP, assim como de outras universidades e cursos de pós-graduação. Atuou como gerente de processos e melhoria em empresa de bebidas e foi um dos idealizadores do Desafio Unicamp de Inovação Tecnológica.